Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

Quão estranho é o corpo que serve de suporte a esta alma, algures perdida entre uma ponte descaída e a água que dela jorra.
Umas mãos, um tanto ou quanto grotescas, apertam o ciclo normal do crescimento. Tal qual o pôr-do-sol que descai em cortes oblíquos, a boca desfia a espinha dorsal dos medos, temores, desejos escondidos por entre uns sorrisos opacos.
Leves lufadas de brisas, doidivanas, riem entre a carne que se reanima. Teimam em jeito de escarno falar sobre o que é o ciclo normal, nunca saberão o que sente a alma, são desprovidas de qualquer sentir.
Todavia, a mão que parecia grotesca, é pura seda, desliza sob a imensidão d' água que com a sua força embate no dique imposto por um alguém, não se sabe quem.
Em breve, chegará a negrura, com ela a solidão de alguém que se senta a um canto e declama um cantiga de amor. Talvez um poema, ora sentido, ora casto.
Ao longe, ouvir-se-á o tic-tac de um velha que à janela espera a notícia de última hora.
O tempo morrerá antes de o mensageiro entregar o papiro, a velha não saberá o que fazer e a alma, entre os seres habitará num eterno desejo de se expandir sob o amor...
29 Agosto 2011

Terça-feira, 10 de Maio de 2011

Adele - Someone like you (lyrics in description)



Meia luz, cobre meia face, encontro da lágrima com os lábios. A mão que acode numa aflição, põe a nu a carência que desfalece a cada movimento.
Ontem, já era tarde para fazer ou dizer o que sente a alma, o coração.
Sentir que se envolveu numa névoa, maresia de um mar amargo, transtornado...
Às vezes, nada se comparará com a emoção de se estar a rolar bem no fundo das palavras. Desejo que brota a cada sussuro, rasgo de um sorriso, meio amarelado pelo tempo.
Relembro as virtudes e pecados que me correram nas veias, aquando e tão simplesmente ao teu toque o meu corpo estremeceu...

09/05

Domingo, 24 de Abril de 2011

Tori Amos-"Sleeps With Butterflies" Music Video



Rasteja a noite sob o mar, que se salgou antes do último suspiro lagar.
Que mãos irão talhar, acariciar a dor, talvez em jeito de súplica se quer matar, deixar este ser e não ser e demência, soturnidade que se envolveu aquando a lágrima caída se desfez no sal que o mar se salgou. Dor vicada em tormento, latejar da mente, a mão que o peito apertou e a boca não largou.
Com que sentir, propósitos e contorversias, o amor se levantou num ai e tudo deixou.
Quem aparará a efémera esperança, que não dança nem alcança o seu bem maior - a pessoa que amou, ama e amará.
Que ventos e os deuses, levem a noite a tormentos iguais ou maiores que o poeta que dorme alcançou.

16 Abril

Sábado, 12 de Março de 2011

Diana Ross - Do You Know Where You're Going To?






Mistura-se o ardor da noite que salpica o céu com o esmorecer de um sol que desmaia sobre o mar. O corpo que se arrasta em linhas um tanto ou quanto duvidosas.




Salvem a alma, o choro que avulso se vai contendo num ai. Gritos ao longe, quem os ouve? Avista-se uma mão que estrangula o horizonte, abre o peito, uma boca que se fecha e abre num tremer de dor.




Um dedo que se coloca a jeito, sustem a respiração, dançam as gaivotas no ar, mau agoiro descrevem.




Morte aconteceu, silêncio, não queiram acordar o aperto que deambula algures entre a esquina e o olho que quer chorar.




Lamento, palrar do corpo que se deixou ficar. Agora, olhando o vazio, avista o enterro de um sorriso que se esgueirou nos braços de uma lua nascida, lambida pelo universo. Negro poderá ser o espaço onde se habita, o olhar que se cruza com o sofrimento.




17 Maio 2011

Elton John - The One



Neste minuto de solidão bastar-me-ia uma palavra, uma lágrima, um beijo quem sabe.
Tudo o que sei é que escorre pela minha face cânticos de carpideiras, bustos de musas que há muito desapareceram.
A noite desliza por entre as notas de música, o fumo que se vai enrolando nos lábios, um pouco gastos pelos gemidos e soluços.
Como bastava que uma palavra voasse e sobre mim pairasse, a mensagem seria clara: És tudo o que preciso.
Escárnio dos segundos que teimam em parar, as mãos cobrem a cara lapidada cujos contornos se desfazem em mais um lamento.
Sopro que vem de longe, mais parece um múrmurio, será que lembras-te de me falar?
Não és tu, simplesmente o vazio da minha alma que se libertou o céu apertou e em mim o frio despejou.
Serei o único, talvez no meio da penumbra a ditar o que se há-de escrever quando poderia estar a delinear com a língua os traços do teu corpo...
12 Março

Sábado, 29 de Janeiro de 2011

Norah Jones - Turn Me On



Vesti-me de palavras impróprias, ruas sem sentido, becos obtusos.
Flutuo entre o medo e o preconceito, finjo que não volto. Caio entre a imundice que são os pensamentos.
Vagueio entre a maré que me lambe os pés, direi que serei o pertérito-mais-que-perfeito.
Mudo de rumo, de tom, de pele. Esmurro o vento que me espanca, lágrimas que ficaram presas num olhar.
Não quero a solidão de olhar um luar a nascer entre a ondulação do teu corpo.
Salto entre a bruma da minha vontade e o prazer que me assalta.
Não quero mais escrever, cansei de ditar aos dedos o que me vai na alma.
26 Fevereiro

Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

Tore My Heart - OONA [Full-Version]



Dos rasgos do meu coração, saem vozes, talvez alucinações. Imagens, sons que me atormentam, me fazem divagar para um plano paradoxal onde faz frio, muito frio.
Voa em tua boca murmúrios, estendo a mão, a minha nudez obriga-te a fechar os olhos.
Choro avulso, medido por um copo mal feito e sem nexo. Algures entre o meu estado dito normal e a loucura que se apodera no clímax da noite, solto as amarras.
O subconsciente larga os vapores, fuma dos meus cigarros, bebe do meu sangue, sonho o quê? Poderia dizer-te mas não te faria sentido.
Faz frio aqui, enrosco-me entre o aconchego do dia que vai amanhando a lua para que esta se venda numa esquina entre o olho que quer dormir e o outro que tem que despertar.
Dou por mim a rir, não me chames de lunático, paranóico. Nunca estive tão lúcido nesta embriaguez, as ondas que me acompanham não me fazem enojar, ou seria enjoar?
Que importa, seja o que for.
Dos rasgos do meu coração, sangue já não sai. O medo estancou-o, eu, nem eu sei para onde me irei estagnar.
18 Janeiro 2011

Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011

Diana Krall - Love is where you are



Parelelo que se me corta em dois, angustia, ironia e loucura me rondam.
Tormento que me diz que não quer, o quê? Não saberei explicar...
Justifico talvez este acto de insensatez com a chuva que brota de minha boca, dos meus poros. Quis, desejei, vaguear entre a intempérie que baila no negro céu.
Beijos que vêm do nada, alcançam-me como tiros. Corpo que desmaia na lagoa de chuva que bate algures numa persiana já gasta de tanto de lhe tocarem.
A música que penetra na alma, prazer em adulterar as palavras, metáfora de mim para mim.
Estarei pronto? Que importa, venham os seres e vozes que voam sob as horas que pelo relógio deambulam.
Labirinto que me apresentam, Ícaro onde andas tu?, traz as tuas asas. Não vejo o nexo do anexo que me colocaram.
Faz-me sair, gritos que se convertem em dor, espasmos no fumo que se evapora nos lábios...
Descida ao inferno, não de Dante, somente de uma alma que luta sem meios para vencer...

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

Annie Lennox-The Hurting Time



Legião de vozes que batucam tal qual um martelo.
Divagam no que chamam de lar, cérebro, não são mais do que pensamentos que se entrelaçam nos subúrbios do meditar.
Organizá-los consoante a demência daria muito trabalho, não haveria contra peso e medida, alguns perder-se-iam nas malhas de um passador inexperiente.
Hábito de costume, nem os sinto ou ouço muitas vezes, insistem e fecham-me a visão, aí voo por entre as palavras, dialectos que possam usar.
Que me importa o que pensem, não saberão entender o que vai cá dentro.
Louco não estou, como poderia ser algo que já sou?
Shiu, adormeceram, paz, alívio...

06 Dezembro 2010

Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

Maria Bethânia - Tenha calma



Tento manter a calma, disparos de sentir, amargura, como que numa roleta russa nunca se sabe quando vai sair a cor que escolhemos.
Morro na estrada, não chego a esquartejar as palavras em gumes, rolam no asfalto em cru.
Saberão porventura que ser humano é sentir em duplicado o que outros não sentem?
Que falta faz a paz que se avista ao longe, espinhos rompem do nada, nem chego a senti-los.
Por vezes vem um bálsamo, refresca o esquecimento, ludibria o sentir que se sente cansado de tanto se mostrar.
Bem que quis, esqueci o que quis. Rasgos de memórias, estado de lucidez estrangulado entre olhares e bofetadas que o vento me trouxe.
O desejo, esse vive só, quis partir, implorei que não me deixasse.
Venham até mim, me elevem num pedestal sem suporte, não quero ser Rei nem senhor de quimeras. Imperador de uma terra de ninguém, tanto faz que seja no vazio que choro os acordes de um fado.
Descai o pano sobre mim, tudo se apaga , estou no céu? Que importa se silêncio, harmonia e tudo o que quis manter se vem chegando...

24 Novembro 2010

Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

Nocturno - Chopin

Vagueia um homem sem rosto, folhas que o encobrem. A noite desmaia a cada passo que dá, não há sons, cheiros.

Imparcialidade dos transeuntes, inexistência de um cumprimento.

Quem és homem sem rosto?

Que trazes em teu coração, porque vagueias no soturno da noite?

Olha para mim, estou aqui, sim.

Não vás, deixa que te estude, te faça falar.

Também eu o rosto há muito perdi, aliás perdi-me em ruas e vielas, oblíquas, outras circulares, sei lá.

Bem sei que não pensas, tal como eu pensara em tempos, quimeras e futuros lambidos por uma vidente.

Deixa que te acompanhe, prometo não falar, serei a tua sombra.

Onde estás homem sem rosto?

Que fazes tu atrás de mim?

Serei eu a tua sombra e não tu a minha...

08 Novembro 2010

Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

Marisa Monte//Bem que se quis

Tenho fome de infinito, sede de estrelas, de penetrar o buraco negro.

Chora a rameira, lágrimas que são orvalho em minhas mãos. Vento que abana o meu corpo, teimosia da mão que não larga o luar.

Difícil vencer o derrotista, tango que se desenrola sob os pés.

Que fado carrego nos lábios gretados e marmorizados por um toque. Espiral de emoções, carrossel do desejo.

Alguém que me liberte, arranque os grilhões que me ferem a alma.

Ardósia que colocaram no céu, lá escrevo a dor, não são estrelas, talvez enigmas.

Aterro em pernas do amor, eleva-me a loucura, deixo-me estar...

05 Novembro 2010

Domingo, 19 de Setembro de 2010

Annie Lennox - Why?




Teus olhos cor de chuva, puxam-me para a imensidão que os cerca.

Lânguida é a forma que tornam, abraçam e observem as minhas palavras.

Entretenho-me a desvendar enigmas encriptados, distraio-me em teus lábios, sorrir adocicado. Sou manteiga em teu corpo, fogo que explode com teu silêncio.

Intemporal torna-se o espaço, sacio-me em tuas mãos, defines o meu corpo, moldas a minha loucura.

É nesses olhos de chuva que me banho e me deleito com o que dizem ser amor...

16 Setembro 2010

Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

Ella Fitzgerald - Summertime

A luz que o candeeiro reflecte, pisca como que num código morse. A penumbra já não mata em pequenas porções o tempo. Os ponteiros lutam, descai o dia sob meus olhos, pensamento que te procura.

O cheiro que te aspira num atchim, erguem-se as paredes num todo, toco o betão, estás aí, eu sei. Estás entre tijolos, quero partir as vigas, parte-se o beijo que entre as gretas te dou.

Uma mão, grande, bate-me. Afasta-me do doce, da gula, que pecado tão feio.

Armam-me em poeta de rua, esperam que declame as pedras, as melancias que rolam do corpo da duquesa. As palavras não mentem, menos os dedos, de jorrada divirto o bobo, tomates me atiram.

Saio do palco, a mão tranca-me na cela, a luz que pisca, a ratazana que ri, estando nu crucifico-me na parede.

Palavras que se alojam em mim, anos vindouros será o louco que com as palavras fornicou, quando teu corpo a um toque estava...

13 Setembro 2010

Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

miss you like crazy / Natalie Cole

O sol abraça o dia, sufoca-o, lentamente vai falecendo. A noite vai subindo, rasga o céu, jorra leves traços de laranja, rosa, pigmentação que confude os olhos que observam.

Confunde-se um abraço, aperto no coração. Levanta-se o corpo só, lágrimas que permanecem vincadas no rosto.

A cegonha que faz o ninho no fim/início de um precipício, o corpo cai por entre os grãos que se amontoam sobre os pés.

Labareda de dor, queima a alma, destroi o que a mente vai rolando sob um olhar atento.

Não vem a mão aconchegar o peito que arfa, moridela de lábio. Verte-se sangue, quais lágrimas de D. Inês, manto de carmim sob a imensidão da dor.

Prende-se nos dedos o aroma da saudade, eterno sentir que se abateu sobre a criança em corpo de adulto.

Desfolhar do corpo, que importa os que por ali passam, nada vêm a não ser um louco. Salga-se a pele na água, conserva-se as lágrimas que rasgam a face, abre-se o coração.

Lá longe vem um peixe, morde o conteúdo do ser, um ai que acorda a mente, o pesadelo regressou.

Solidão que se senta, a lua que no céu germinou embala os amantes há muito que amou.

03 Setembro 2010